20/05/2026Por que você foge de si alma corajosa? | Jung, sombra, persona e o caminho de volta para dentro

Na newsletter de hoje eu quero compartilhar as reflexões que tive ao visitar a exposição “A alma humana, você e o universo de Jung” que aconteceu no MIS aqui em São Paulo entre novembro/25 e março/26.

Saí de lá com uma pergunta que chegou amorosa, mas intensa na minha mente:



“Por que foges ou busca fora de ti, alma corajosa?”


Fiz até um “poema” deixando que a “resposta” à essa pergunta “saísse” lentamente sobre as minhas reflexões por meio da escrita... vou deixa-lo na integra, no final deste texto, mas antes disso eu quero trazer alguns dos conceitos da obra Junguiana, insights e sugestões para auto-observação cotidiana. Afinal de contas, minha intenção aqui é trazer reflexões para uma alma corajosa em movimento, pois é no cotidiano que a vida acontece.


Bom, alguns de vocês já sabem que sou uma admiradora e estudiosa da obra do Jung, a obra que deu origem à Psicologia Analítica ou Psicologia complexa ou profunda.

E aqui a gente já se pergunta: Por que 3 nomes? Vamos lá:



  • Psicologia Analítica: é o nome oficial que surge em 1913, quando Jung segue seu próprio caminho de pesquisa após o rompimento com Freud. É o termo mais frequente nos títulos e conteúdo dos documentos.
  • Psicologia Complexa: é o nome que também aparece associado ao seu sistema de pensamento, especificamente no título de seções que tratam da transição de seu trabalho.
  • Psicologia Profunda: Algumas fontes utilizam este termo para descrever a visão de mundo compartilhada entre a psicologia de Jung e a mitologia, referindo-se ao estudo das camadas mais inconscientes e espirituais da psique.


Bom, particularmente gosto muito de uma história que ouvi certa vez que a “psicologia junguiana” era só dele mesmo, pois ele tinha feito o trabalho de auto-observação, acompanhamento as imagens e fenômenos que emergiam de seu inconsciente. E que cada um de nós deveríamos ter um caderninho onde escrevêssemos nossos sonhos, imagens, sensações, enfim... ao final desta auto-observação teríamos nossa própria obra e nossa própria psicologia. Eu teria, por exemplo, a psicologia “caunetiana” e você? Qual seria o nome da sua psicologia? Coloca aqui nos comentários!


Se esta história procede ou não, não sei, mas é interessante pensar que a gente pode e deve se atentar àquilo que nos acontece certo?

Talvez seja por isso que na obra “Memórias, Sonhos, Reflexões” Jung cita:



"Minha vida é a história de um inconsciente que se realizou. Tudo nele repousa aspira e torna-se acontecimento, e a personalidade, por seu lado, quer evoluir a partir de suas condições inconscientes e experimentar-se como totalidade."  

Carl Gustav Jung

Bonito né? Será que a gente , melhor dizendo: nosso ego, consegue permitir a realização mais profunda da nossa alma?

Será que ao final da nossa jornada teremos esta paz de que “o que foi vivido”, foi o suficiente?

Estaremos em paz com nossas entregas? Com nossa jornada de erros e acertos?

 

Pois é almas corajosas, agora dá pra começar a entender por que “psicologia profunda” e porque “complexa” né? E também porque ‘essa pessoa que vos fala’ vos chama de “almas corajosas”. Bora olhar para mais alguns conceitos? Respira fundo e coragem vai!

 

E fica tranquila que vou trazer conceitos de uma maneira simplificada e algumas sugestões de como identificar e praticar no dia a dia. Vamos começar? C’est parti!

 

Persona

“Na psicologia de Jung, Persona é a ‘máscara’ que a gente usa pra se apresentar ao mundo. Ela é necessária: nos protege, organiza a vida social. Mas quando esquecemos que é só uma parte, aí pode complicar.

É como se fosse uma roupa que a gente usa em determinados lugares: Você vai à praia com roupa de praia, à um casamento com roupa de casamento, pra academia com roupa de academia e por ai vai. Teoricamente, a gente escolhe o que vai usar de acordo com o ambiente, ocasião, etc. Só que você não é a roupa! Entende?

Você é quem usa a roupa. Uma das problemáticas em torno da persona é quando há identificação com a máscara. O individuo não sabe mais quem ele é e acredita ser só aquilo que aparenta ser.

 

Topa um exercício?

Olhe para si no espelho e, responda:

‘Quem eu estou tentando ser hoje?’ ‘O que em mim quer ser visto de verdade?’

Anote as palavras que surgirem.

 

Sombra

Sombra, para Jung, são aspectos inconscientes reprimidos ou negados. Não são só aspectos ‘negativos’ como a maioria das pessoas pensam. Na sombra também estão os potenciais, também inconscientes da personalidade. É aquilo que o individuo “não reconhece” como seu.

Para Jung, identificar e entrar em contato com a sombra é a primeira etapa indispensável do processo analítico e do autoconhecimento.

Normalmente, só este reconhecimento já contribui para que o indivíduo se torne mais  tolerante e menos crítico em suas relações. Afinal, o individuo descobre neste processo que o outro é só reflexo de uma parte que ele não reconhece de si mesmo. E que, no final, estamos todos enredados em nossas complexidades e no caminho de desenvolvimento pessoal.

Conhecer a sombra é um ato de honestidade amorosa. O primeiro artigo desta newsletter falo sobre “observação e honestidade.”

 

Mas vamos para mais um exercício?

Pegue um papel e divida em duas colunas. Agora escolha uma pessoa que te irrita, te incomoda profundamente e na outra coluna coloque o nome de alguém que você admira muito. Pode ser alguém conhecido, uma celebridade, sei lá... alguém que te tira do sério e outra quem você admira.

Liste nas respectivas colunas todas as características que lembrar dessas pessoas: porque você não suporta uma e o que mais ama na outra.

Depois disso: olhe atentamente para a lista e veja se é possível reconhecer essas características em você. Não em comparação com as pessoas, mas quando e em que momentos você também age daquele jeito.

Por exemplo: “não gosto de fulano porque ele mente.” Quando e em quais situações você mente também?

Adoro beltrano porque é determinado, otimista. Em que situações na sua vida vocês se sentiu ou foi determinada? Será que é preciso deixar a determinação aparecer mais vezes na sua vida?

Acredite, não é um exercício fácil. Mas aos poucos a gente vai aprendendo a enxergar o outro como um espelho de nós mesmos. E, na relação a gente cresce!

 

Alquimia interior: do chumbo ao ouro

O conceito de alquimia é bastante complexo na obra do Jung, mas depois do nosso mergulho na sombra, vou “reduzir” este conceito aqui como sendo uma metáfora, um mapa no processo de individuação que contém as seguintes etapas:

    • Nigredo (chumbo): momento da confusão, dor, crise.
    • Albedo: momento de clarear, entender padrões, trazer luz para a situação.
    • Citrinitas: compreensão, o nascer da de uma consciência criativa.
    • Rubedo: integração viva, o momento em que a "transmutação" se completa, de maneira simbólica: o momento em que o chumbo se transforma em ouro. Uma ação a partir do Self.

Como exercício, sugiro apenas que você observe sobre alguma situação específica que está vivendo e reflita em qual dessas etapas você está nesta situação?

Se precisar de apoio nisso, me chama para gente conversar e mapear isso juntos.

 

Sonhos

Ah! Quando se fala de Jung, muitas pessoas já relacionam à análise de sonhos né?

Sim, pois para ele “Os sonhos, as imagens que surgem são a linguagem do inconsciente.” E o convite aqui alma corajosa é que você compre um caderninho e anote seus sonhos, desenhe as imagens.

Muitas pessoas relatam que não sonham nada, mas a verdade é que todos nós sonhamos! Acontece que muitas vezes nosso ego teimoso não valida ou não quer entrar em contato com essas imagens , com essas “mensagens da alma”.

Muitas vezes brinco que a gente precisa, “negociar” com o ego antes de dormir para que ele permita uma pequena lembrança, uma cena, uma frase ou sensação, pois esta já é o suficiente pra começar o trabalho de análise.

 

Self

Self, para Jung, é a totalidade! Consciente, inconsciente, sombra, complexos (que eu nem falei neste artigo) e tantos outros aspectos da personalidade.

São tantas as “partes” do nosso ser que acho que pra hoje está bom né?

Já temos assuntos e diálogos abertos aqui para lidar com essas partes em nós.

E assim encerro com o poema que o meu inconsciente apresentou para o meu consciente e que agora eu compartilho com você, alma corajosa:

 

Por que foges ou busca fora de ti alma corajosa?

Eu sei que não é fácil encarar o desconhecido, a própria sombra e principalmente a própria luz!

São muitos os complexos, as máscaras e as distrações que o mundo oferece, mas quero compartilhar hoje que a principal tarefa e talvez o único caminho é aquele que te conduz pra dentro!

Coragem é o que te desejo para segui-lo e atravessá-lo! Cor-agem!

Atue com seu coração e acompanhe com curiosidade e graça o seu processo alquímico: saia do chumbo, transforme-se em ouro!

Comece pelo espelho. Escute-se em suas falas. Reconheça a sua máscara!
Observe suas nuances, como ela se molda a você e você à ela.

Reconheça as situações onde ela te protege e as situações onde ela te limita.

Lapide, molde, descasque… dia a dia perceba como ela e você se transformam!
Coragem!

Continue dia a dia e, noite a noite deixe sua alma trazer as imagens, as direções.
Escreva e sinta a força que emana do seu inconsciente. O seu, único e exclusivo inconsciente que compreende à consciência maior. A consciência que guia cada um de nós para nossos caminhos individuais e também coletivos.

Queira seguir o “seu” caminho alma corajosa. Ninguém pode fazê-lo por você.

“É nossa responsabilidade recuperar as nossas partes”. Dra. Clarissa P. Estes

O desenvolvimento coletivo depende também do seu desenvolvimento pessoal.

“Seja a mudança que você quer no mundo” Gandhi

Se precisar, descanse.
Mas não se disperse, desperte, alma corajosa!

 

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

📚 JUNG, C.G. Obra completa de C.G. Jung: https://amzn.to/4sA2J4d

📚 Mulheres que Correm com os Lobos, Dra. Clarissa Pinkola Estés (Rocco, 2014) https://amzn.to/3QxNWJn


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