05/05/2026Oração da (minha)maternidade

O Dia das Mães está chegando e o mundo vai encher de flores, chocolates e frases bonitas, mas eu quero conversar com você sobre um lado que raramente aparece nesses cartões.

 

O conceito de individuação

Jung chamava de individuação o processo de se tornar quem se é (na essência). E um dos aspectos mais intensos e profundos que impactam nesta jornada é o complexo materno.

Hellinger também traz isso de maneira cirúrgica:


“Ninguém esteve jamais tão próximo de nós quanto ela, e a ninguém estivemos jamais tão unidos.” (2014, p.190)

Quando eu me tornei mãe, essa questão me virou do avesso:

E eu? O que estou deixando de herança para os meus filhos?

 

A virada pessoal: a filha que se tornou mãe

Eu que sempre fui inclinada a me investigar e descobrir quem eu era, no que queria me tornar, depois da maternidade, passei desenvolver um olhar nada romântico, pelo contrário: extremamente cuidadoso e atento sobre relações de maternidade que aprisionam, que limitam e, definitivamente busquei mergulhar ainda mais profundamente nas minhas dores e questões internas.

Estudei constelações, psicologia junguiana, leituras e inúmeras vivências de autoconhecimento pra descobrir que não se trata de um simples desejo ou um mais um curso adquirido que iria me blindar de cometer erros tão antigos e presentes no meu sistema familiar e com certeza, na história da humanidade.

Diante desta constatação, comecei a rezar:

 

Oração da (minha) maternidade

"Senhor que eu não seja um peso nas escolhas dos meus filhos.

Que eles tenham liberdade de ir e vir, tomar a vida e se movimentar sem ter que pesar meus medos, frustrações e insucessos.

Que a partir disso e não à espera disso, eu também siga em frente.

 

Que eu reconheça em mim, minhas dores, revoltas e vazios e não projete essas faltas aos cuidados deles.

Que eles de fato, possam viver suas próprias vidas sem a necessidade de “me” cuidar e sem culpa pelas suas realizações.

 

Que eles não sejam felizes como o mundo diz que “tem que ser”,

mas possam viver em paz com suas próprias escolhas.

Que em cada falha ou desafio eles atravessem suas dores com a cabeça erguida olhando para o aprendizado e se desprendam do que ou quem esteve envolvido na trama.

 

Que eles aprendam a se alimentar! A escolher alimentos para o corpo, pra mente e pra alma… E que mesmo diante de um prato aparentemente apetitoso, eles percebam se está ou não envenenado e, se for o caso, rejeitem!

Mesmo que, eu mesma tenha os oferecido

com todo o meu amor e desatenção.

 

Que eles conservem seus dentes; para sorrir e facilitar a digestão de tantos pratos ressecados que as vezes aceitamos (e sei que eles também vão aceitar) por terem fome de algo.

Mas que eles não queiram comer pra saciar a minha fome.

 

Que eles possam me ver como humana, errante e aprendiz

e não como criança, dependente ou preguiçosa.

 

Que quando eu cansar, eles possam já estar longe na estrada e “DES”-envolvidos do meu amor que por inconsciência possa os aprisionar

e, que nesta distância eu possa avista-los mais uma vez agradecida por tê-los acompanhado, ensinado e aprendido a amar a VIDA, que é e sempre será maior que os meus caprichos.

 

Que eu não os adoeça.

Que eu não pode as suas asas.

E que, como diz o poeta: que eu abençoe - de fato - seus voos para que sejam livres pra voltar, pela saúde e delícia da nossa relação e não por não suportarem ver minha solidão.

 

Que eu tenha clareza e esteja atenta, Senhor!

Atenta e pronta para ver, assumir, agir e des-envolver meus filhos,

mas Suas almas corajosas!"


Por Fabi Cauneto, 07/05/2025

 

Nota: Escrevi isso rezando para não errar. Sabendo que vou errar.

Consciente de que é exatamente nessa tensão que a maternidade e a individuação acontecem.

 

“Seus filhos não são seus filhos.
...embora vivam junto de vocês, não lhes pertencem.”
K. Gibran, em “O profeta”

 

...

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

📚 GIBRAN, K. O Profeta. 1ª Edição. Editora Ajna, 2021

 

📚 HELLINGER, B. Pensamentos a caminho. 2ª Edição. Editora Atman, 2014

 

📚 JUNG, Obra completa de C.G. Jung

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