28/04/2026Quem é a Dra. Clarissa, autora de Mulheres que correm com os lobos?

Você já se perguntou de onde vêm as histórias que te moldam?

Ou quais acontecimentos da sua vida e até mesmo dos seus familiares transformam você em quem você é?

 

Estou abrindo com essas perguntas por a gente passa por tantas situações na vida que nos dão a possibilidade “nos transformar”!

Seja em seres amedrontados, seja em seres fortalecidos. E é essa força de transformação que vejo na Dra. Clarissa Pinkola Estés.

 

Nos próximos textos desta newsletter, pretendo aprofundar nos contos, e preparem-se porque a gente vai! Mas antes disso, gostaria de apresentar algumas informações sobre a mulher que colheu contos, os estudou e trouxe até nós uma costura preciosa entre eles em sua obra “Mulheres que correm com os lobos”.

 

A mulher que cresceu na natureza

 

Clarissa Pinkola Estés nasceu de uma linhagem hispano-mexicana e foi adotada por uma família de húngaros, segundo ela: impetuosos. Cresceu numa fronteira, não só geográfica, entre Michigan e Indiana, mas entre dois mundos de histórias, duas tradições de vozes de mulheres.

 

Ela descreve a própria infância como uma imersão total na natureza: os trovões eram seu principal alimento; os milharais estalavam e falavam alto à noite e os lobos chegavam às clareiras ao luar.

E foi assim, na natureza viva que ela começou a entender algo profundo sobre as mulheres.

 

Certa vez, ela viu uma loba matar um de seus filhotes que estava gravemente ferido e entendeu isso como uma aula sobre compaixão, ou seja, sobre a necessidade de permitir que a morte venha aos que estão morrendo.

Ela viu lagartas caindo dos galhos e voltando a subir, se arrastando e, aprendeu sobre determinação.

 

Para ela, a natureza não era paisagem, era professora.


Mas ela cresceu também em um tempo muito específico: uma geração posterior à segunda guerra mundial, em que as mulheres eram, nas palavras dela, “mantidas como jardins sem cultivo.”

As que escreviam, escreviam sem permissão. As que pintavam, pintavam sem reconhecimento. As que queriam dançar, dançavam na floresta, onde ninguém as via, no porão ou no caminho para esvaziar o lixo da casa.

 

Neste ponto, vale refletirmos sobre as possibilidades que temos hoje e como a gente está usufruindo?

Estamos transformando a nossa experiencia de vida em que?

 

A Dra. Clarissa se descreve como uma criatura disfarçada. Em seu livro ela relata que já andou "cambaleante em saltos altos, mas também foi à igreja com vestido e chapéu" e, completa: “minha cauda fabulosa muitas vezes aparecia por baixo da bainha do vestido...

 

...Não me esqueci da canção daqueles anos sombrios, hambre del alma, a canção da alma faminta; mas também não me esqueci do alegre canto hondo, o canto profundo, cuja letra volta à nossa mente quando nos dedicamos à regeneração do espírito.” (pág. 18)

 

É bonito ver que apesar das circunstâncias, ela tinha consciência da realidade e também sabia onde encontrar forças para a travessar as “florestas” daqueles tempos.

E nós? Como estamos diante das dificuldades dos nossos tempos atuais?
Conscientes e ativas? Ou perdidas e desamparadas?

 

Formação acadêmica e metodologia de trabalho

A Dra. Clarissa fez doutorado em psicologia etnoclínica, um estudo que une psicologia clínica e etnologia, ou seja, o estudo de grupos e tribos de diversas etnias. E depois pós-doutorado em psicologia analítica, o que a qualifica como analista junguiana.


Ela foi criada por uma família húngara com uma longa linhagem de contadoras de histórias: as mesemondók, velhas que contam sentadas em cadeiras de madeira, as saias tocando no chão. Ela pertence também à linhagem das ‘cuentistas’ latinas que ficam paradas em pé, com os seios fartos, ancas largas, gritando histórias no estilo ‘ranchera’.

 

Para essas contadoras, uma história é um medicamento que fortifica e recupera o indivíduo e a comunidade, mas eu vou aprofundar este tema nos próximos textos.

 Ela passou décadas viajando, ‘trocando’ histórias em mesas de cozinha e debaixo de parreiras, em galinheiros ou enquanto preparava tortillas em comunidades de imigrantes e aldeias indígenas.

 Colheu contos como quem faz arqueologia: procurando o esqueleto da história original sob as camadas de edições, moralização e censura que foram sendo impostas ao longo dos séculos.

 

Ela chama isso de paleomitologia. Eu chamo isso de coragem!

 

Costumo dizer nos meus atendimentos e grupos que “A vida não erra”. E, a formação e experiencias de vida da Dra. Clarissa me reforçam esta ideia, porque é muito curioso a maneira como ela reúne e “transforma” tudo isso: heranças familiares, formação acadêmica, viagens e todas as suas vivências.

 

No consultório, as histórias atuam como um instrumento clínico. Ela acompanha os sonhos das pacientes como tramas. Usa a imaginação ativa de Jung para que ‘a história se mostre’. Ensina ofícios das mãos ou o que chamamos de artesanatos: confecção de amuletos, escultura, arte, porque para ela “o fazer com as mãos é uma forma de criar alma.”

 

Em relação aos contos, ela diz que o objetivo é sempre encontrar o conto condutor. Aquela história que contém todas as instruções de que uma mulher (ou o paciente) necessita para seu desenvolvimento psíquico atual.

 

Essas ferramentas ela descreve no livro, mas acredito que hoje, aos 81 anos completados neste ano, 2026 ela não atenda mais clinicamente. Imagino eu que ela se dedique às suas atividades pessoais e, profissionalmente, talvez somente às imersões que acontecem no Colorado, EUA. (E que neste ano eu vou gente... não vejo a hora!)

  

O convite do livro e do Projeto Alcateia

 A Dra. Clarissa levou 20 anos para escrever “Mulheres que correm com os lobos” e ela diz que:

 “...esta obra é um trabalho permanente, perpétuo. Assim, seguem-se algumas histórias a serem usadas como vitaminas para a alma, algumas observações, alguns fragmentos de mapas, pedacinhos de resina de pinheiro para grudar penas em árvores como sinalização do caminho e algum mato rasteiro amassado, guiando o trajeto de volta a el mundo subterrâneo, nosso lar psíquico.” (pág. 34)

 

Ela ainda complementa dizendo que:

 “Este é um livro de relatos sobre os costumes do arquétipo da Mulher Selvagem. Tentar esquematizá-la, delimitar sua vida psíquica dentro de escaninhos, seria contrário ao seu espírito.”  (pág.34)

 

E na verdade é assim que eu o vejo: uma obra que fala de um arquétipo e, portanto, não é possível rotular, definir passos e procedimentos para se acessar a “Mulher Selvagem”. Ela atua no inconsciente e por isso

 

não somos nós que invadimos o inconsciente, pelo contrário, o inconsciente, nos toma e invade!

 

Seja para nos impulsionar, quando estamos dispostos a acessá-lo com respeito e nos movimentar ou seja para “nos arrastar barranco abaixo”, quando não estamos atentas ao nosso real compromisso com a vida.

 

“O material foi selecionado para dar coragem. Não para transformar rápido; não para resolver, mas para fortalecer as mulheres que estão no meio do caminho, as mulheres que lutam em difíceis paisagens interiores, e as que lutam no mundo externo e por ele. (pág. 35)”

 

Esse é exatamente o espírito do Projeto Alcateia. Não tenho a pretensão de te dizer como você deve ser ou que passos você deve seguir para se desenvolver. Compartilho como eu vivi esta obra, até onde cheguei e, se você quiser, podemos continuar avançando esta floresta juntas.

 

Se tiver interesse em participar, entre no nosso grupo fechado de Whatsapp onde eu divulgo as datas dos encontros e outras informações referentes ao projeto. Se preferir, acompanhe as comunicações nas redes sociais.

 

Espero que este conteúdo tenha sido útil para você conhecer um pouco mais desta grande alma corajosa que ainda está entre nós, semeando sua palavra e evocando que a nossa Mulher Selvagem possa despertar e nos guiar para a nossa natureza mais profunda.

 

Siga seu movimento alma corajosa até o próximo encontro!

 

 

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REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

📚 ESTÉS, Clarissa Pinkola. Mulheres que correm com os lobos, Editora Rocco

https://amzn.to/499powv

 

 Este conteúdo também está disponível como ‘videocast’ nas seguintes plataformas:

🔴Youtube: https://www.youtube.com/@iFabiCauneto

🎙️Spotify: https://open.spotify.com/show/0pAY0mZce5G32gbtrb3yqx?si=64b2e6df7eae41fb

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