09/06/2026La Loba: Por que ela vive no deserto?Você se lembra do conto da La Loba? Já parou pra pensar por que ela vive no deserto? Porque será que uma figura tão sábia e arquetípica não se
apresenta em uma floresta ou um castelo, mas ao invés disso: num deserto, no
vazio? Em um lugar onde a maioria das pessoas evita, atravessa depressa ou nem considera chegar. Em nossa última newsletter a gente mergulhou na simbologia dos ossos: o que eles são, o trabalho de recolhê-los, o que significa cantar sobre
eles. E, hoje, eu te convido a ficar comigo no deserto e olhar um pouco para este
lugar. O deserto não é vazio, é condensado La Loba não está no deserto por acidente. E se ela é a portadora da nossa força mais essencial...
talvez valha a pena perguntar: o que o deserto tem que a floresta não tem? Aparentemente
uma floresta tem muito mais a oferecer do que um deserto. Mas porque então a
“La loba” que é tão sábia, escolhe morar lá? A Dra Clarissa diz que o deserto é um lugar onde a vida se
apresenta muito condensada. As raízes das plantas se agarram à última gota
d'água. As flores abrem apenas de manhã cedo ou ao final da tarde para guardar
umidade. A vida é pequena na superfície e imensa por baixo. E ela ainda chama a nossa atenção: “Muitas de nós vivemos vidas desérticas: ínfimas na superfície. Imensas por dentro.” (ESTÉS, pág. 52) Durante muito tempo achamos que isso era um problema. Mas o que a Dra. Clarissa está dizendo é outra coisa: a vida no deserto é intensa e misteriosa exatamente porque quase tudo acontece no subsolo. E a gente não está acostumada a acreditar naquilo que a gente não vê né? Em outras palavras, não estamos acostumadas a olhar além da superfície. Pensa nisso por um segundo: a profundidade não aparece na superfície. Mas ela está lá: trabalhando, rastreando água, guardando o que tem de mais precioso para o momento certo. É uma forma de vida (e de existir) que a maioria das pessoas
ainda não aprendeu a reconhecer e muito menos se dedicar a abrir espaço para
observar este “espaço vazio e árido.” A mulher que quer fugir do deserto A Dra. Clarissa fala de mulheres que não querem estar no deserto psíquico. Que detestam a fragilidade, a escassez. Que ficam tentando “fazer alguma coisa funcionar”, qualquer coisa, para ir embora dali o mais rápido possível. Ela apresenta a seguinte imagem: linda, mas um tanto desesperada: “em todas as direções, 500 kilometros de nada... tentam fazer um calhambeque enferrujado funcionar para descer aos solavancos pela estrada na direção de uma cidade refulgente que fantasiam lá no horizonte.” (ESTÉS, pág. 52) Mas a cidade não existe. É uma fantasia da psique. Enquanto essa mulher luta contra o calhambeque e busca uma saída rápida do deserto, ela perde justamente “aquilo que veio buscar” em sua viagem: talvez uma nova ideia para resolver um problema, talvez uma profunda descoberta sobre si mesma. Quantas vezes, alma corajosa... quantas vezes a gente se
desespera e não suporta nossos vazios, silêncios e busca ou se entorpecer
enlouquecidamente no trabalho, compromissos, gente e mais gente só pra não
ficar “no deserto”?
"Os antigos chamavam o deserto de lugar da revelação divina." (ESTÉS, pág.52) A Dra. Clarissa diz que a exuberância não está na “cidade”, ou seja, no barulho e imensa agitação. Ela está no mundo do espírito, no mundo entre os mundos naquilo que ela chama de Rio Abajo Rio, o rio por baixo do rio. Está exatamente de onde a gente estava tentando sair. Então, ela diz: “não seja tola. Volte para debaixo daquela única flor vermelha. E siga aquele último e árduo quilômetro. A velha de dois milhões de anos La Loba não é uma personagem recente. A Dra. Clarissa diz
que ela é a quintessência da mulher de dois milhões de anos e que nós somos
cercadas por ela. Ela existia antes da nossa história. Antes dos nossos medos, antes de tudo que nos foi ensinado sobre o que uma mulher deve ou não deve ser. La loba, assim como a Mulher Selvagem é um arquétipo e é exatamente essa antiguidade (do arquétipo e do cenário onde ele se apresenta) que dá ao deserto o seu peso e autoridade neste conto. É um lugar que carrega mais história do que qualquer outro. Um lugar onde cada camada de areia é uma camada no tempo. Onde vive suas próprias tempestades e onde os ossos são preservados justamente pela secura. No deserto, o que é essencial não apodrece. La Loba sabe disso e é por isso que ela vive lá. A pergunta que fica é: e você, alma corajosa, já visitou o
seu deserto? Já vasculhou a riqueza que há lá? Espero que este encontro de hoje, embora “árido” tenha te
ajudado a vislumbrar oportunidades de desenvolvimento e aprendizado diante dos
seus períodos desérticos. E não se esqueça: se precisar de uma companhia mais próxima para suas travessias é só entrar em contato. E se quiser também participar dos encontros do Projeto
Alcateia, é só se inscrever para a minha lista de distribuição ou entrar para o grupo fechado de Whatsapp que é onde eu divulgo as
informações nos nossos encontros. "Peneire o deserto e veja o que encontra. Essa é a
única tarefa que temos de cumprir.”
Até o próximo episódio, alma corajosa. REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS 📚 ESTÉS, Clarissa Pinkola. Mulheres que correm com os lobos, Editora Rocco ▶️🎙️Este conteúdo também está disponível como ‘videocast’ no Youtube e Spotify. |
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